A Evolução dos RPGs - parte 2

Encontrei este artigo no rede RPG, escrito pelo Marcelo Telles que trabalhou na antiga revista Dragão Brasil e achei muito bom e também muito importante para mostrar como as coisas evoluíram no nosso país. Eu comecei a jogar em 1989 e vivenciei todos estes momentos. Não deixem de ler:


Muitos jogadores mais jovens, aqueles com por volta de 26 anos ou menos, andam se equivocando, achando que estamos entrando em uma nova “Era de Ouro” do RPG Brasileiro – e alguns até mesmo chegam a dizer que estamos começando “a” Era de Ouro do hobby no país. Isso por conta do bem vindo surgimento de várias pequenas editoras e iniciativa independentes do ano passado para cá. Mas esses jogadores desconhecem como era a realidade do RPG Brasileiro na década de 1990, antes do fatídico Caso Ouro Preto, o primeiro dos três crimes em que o nosso hobby foi erroneamente vinculado. Mas numa coisa eles estão certos meio que sem saber: o RPG Brasileiro está mudando e estamos vivendo o início de um novo paradigma do RPG no nosso país.
Paradigma vem do grego e significa “modelo”. Vários fatores levaram o nosso hobby a uma crise de 2006 em diante. Dos três crimes que envolveram injustamente o RPG, passando pelo fim da “Bolha d20” e a popularização dos MMORPGs que captaram público em potencial, até o crescimento da internet e o impacto que o meio digital está fazendo no mercado editorial como um todo. Mas o que muitos esquecem é que crises implicam em mudanças, e um novo modelo do RPG Brasileiro está emergindo da crise pela qual o hobby passou. Mas vamos entender o que era o RPG no passado, para poder entender esse novo paradigma.
Antes do Caso Ouro Preto, o RPG tinha grandes encontros com mais de 5 mil pessoas e convidados internacionais como Mark Rein-Hagen (criador do Vampiro, a Máscara ) sendo entrevistado pela Regina Casé para o programa Fantástico da TV Globo. Uma Bienal do Livro na década de 1990 foi chamada de “Bienal do RPG”, tamanho era a relevância econômica do jogo no mercado editorial nacional. Tínhamos revistas mensais especializadas e RPGs com grandes tiragens sendo vendidos em banca de jornal, e a sexta-feira do Encontro Internacional de RPG – o maior e mais tradicional encontro do hobby – como o dia em que várias escolas levavam seus alunos para conhecer o jogo. Aquela sexta-feira dedicada às escolas era um pilar na renovação dos jogadores. Sem falar que os principais RPGs tinham tiragens de 3 a 5 mil exemplares para as lojas especializadas. E vários profissionais viviam exclusivamente do trabalho com o hobby.

Hoje, nossos maiores encontros não chegam a mil pessoas, o RPG só agora parece começar a se libertar do estigma dos três crimes citados. Temos uma revista esporádica de pouca vendagem e o Encontro Internacional acabou. O número de jogadores ativos – aqueles que jogam pelo menos uma vez a cada dois meses – diminuiu, e o número de consumidores (os jogadores que compram pelo menos um livro por ano, o que por si já é muito pouco) caiu ainda mais drasticamente. A Devir conseguiu colocar seus livros em bancas de jornal, mas em distribuição setorizada e dentro da distribuição de seus outros produtos, como romances e HQs. E meia dúzia de profissionais hoje vive apenas de seu trabalho com o hobby.
Claro que a internet tem um grande peso nessas mudanças. Por exemplo, algumas das funções que os encontros de RPG antigamente faziam, hoje são realizadas pela internet, como a divulgação de novos RPGs e encontrar grupos para jogar. E isso contribuiu para o esvaziamento dos encontros, assim como a cobrança de entrada (nos áureos tempos, os grandes encontros tinham entrada franca). Além da pirataria e do impacto da mídia digital no mercado editorial como um todo, e o RPG não seria exceção disso.
Contudo, após ficarmos de 2006 em diante vendo as coisas caírem vertiginosamente e as empresas negando o óbvio enquanto realizavam vários cortes, inclusive de pessoal; do ano passado para cá nos deparamos com o surgimento de várias pequenas editoras e iniciativas lançando RPGs alternativos e independentes. Dentre todas, duas merecem especial atenção: a RetroPunk Game Design e a RedBox .
RetroPunk foi a pioneira desta nova tendência e provou aquilo que os profissionais da Devir sempre falavam: a Devir não é “dona” no mercado e não impede ninguém de adquirir uma licença de RPG gringo. Estão aí o Rastro de Cthulhu 3:16 Carnificina entre as Estrelas ,Fiasco e muito mais a caminho. Além de Terra Devastada e outros RPGs feitos no Brasil que serão lançados por ela.
RedBox , além de seu retroclone de D&D feito no Brasil, o Old Dragon , irá lançar em português o Shotgun Diaries . Mas eu considero seu maior feito a RedStore , a loja online de venda de RPGs em .PDF com um sistema de web-comércio semelhante às melhores lojas gringas. Finalmente teremos um comércio brazuca de RPGs em formato eletrônico e a REDERPG espera começar a participar dele em breve.
Toda essa diversidade é bem vinda, após uma década sob o domínio de um único sistema. A existência de opções facilita a divulgação do jogo.
Contudo, todas essas iniciativas têm tiragens impressas pequenas e um modelo de comércio de nicho, a famosa “cauda longa” que a internet viabilizou. As de maior tiragem são de apenas 500 exemplares. A imensa maioria de 100 ou 200 exemplares impressos. Então, 10 pequenas empresas lançando produtos com 200 exemplares em média não tem o mesmo peso das 8 editoras que lançavam livros com tiragens de 1 mil exemplares ou mais no auge da “Bolha d20” no Brasil. A diferença é que temos uma grande variedade de sistemas e gêneros, enquanto em outros tempos eram produtos em sua maioria para o mesmo sistema e para fantasia medieval. E é muito bom ver produtos bem feitos, com excelentes propostas e execução de qualidade, é claro.
Todo esse panorama significa que um novo paradigma esta emergindo no RPG brasileiro pós sua grande crise. Não há nenhuma perspectiva do RPG voltar a ter o peso que tinha em outros anos, a quantidade de público, de consumidores e de relevância econômica. O nosso mercado de RPG deixou de ser um mercado e se tornou um “nicho”. Todas essa tendência aponta para tiragens pequenas, impressão sob demanda e formato em .PDF.
A Jambô, que sempre teve o mérito de acompanhar as tendências corretas, logo disponibilizou seus produtos na RedStore.
Mas e a Devir?
O modelo de comércio da Devir para o RPG ainda é basicamente o mesmo dos tempos áureos, embora tanto a Maria do Carmo Zanini (editora de Mundo das Trevas da empresa), quanto o Otávio Gonçalves (editor de D&D), tenham procurado racionalizá-lo, adequando-o à real demanda e tamanho atual do mercado consumidor brasileiro.
Contudo, seis meses sem nenhum lançamento de D&D nos fazem pensar se o modelo ainda é viável neste novo paradigma. Por que nesses seis meses nem o Poder Arcano , nem o Poder Divino , suplementos importantes, foram lançados? Qual seria a tiragem deles? 5, 3 ou 2 mil exemplares? Será que uma tiragem de 1 mil exemplares compensaria o investimento que a Devir tem para produzi-lo, mesmo que toda ela seja vendida? E um produto com menos do que isso?
Conclusão
Infelizmente somos obrigados a explicitar o óbvio para evitar os costumeiros aborrecimentos e bobagens que são ditos por aí: este artigo é uma análise, não uma verdade absoluta. E não, não acho que o RPG vá um dia acabar ou que a Devir vá falir. Mas as coisas mudaram radicalmente e a realidade é outra. E assim o modelo de comércio da Devir para o RPG pode não ser mais economicamente viável diante de um mercado consumidor cada vez mais micro, cada vez mais nicho.
Pode ser que daqui a 10 anos haja um novo “boom” do RPG – por conta dos filhos da geração que hoje tem 30 anos e que está gerando proles.
Mas acredito que entender a realidade hoje do hobby e buscar novas estratégias seja uma solução melhor do que esperar um novo “boom” ou ficar negando o óbvio ululante.
Por Marcelo Telles

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