Conto: Minha Cidade


MINHA CIDADE

Quem olha a antiga cidade ladeada de colinas, não imagina os horrores que ela esconde.Hoje prédios novos foram construídos por todos os lados e a antiga fabrica de cerâmica foi quase totalmente demolida. Suas chaminés não lançam mais, incansáveis, aquela fumaça branca que ficava parada por horas no céu sem vento.

Hoje muita coisa mudou. As noites não são tão escuras agora, mas apenas há 20 anos quando eu era criança, as noites eram terríveis. Ninguém se aventurava pelas ruas estreitas durante a noite. Pelas janelas encardidas das casas antigas podia-se ver as pedras do calçamento por horas a fio, cobertas de sereno sem que um automóvel as perturbasse.

Naquela época as pessoas mais velhas evitavam conversar sobre certos assuntos na frente dos mais jovens, mas na casa ao lado, morava uma senhora idosa de aspecto terrível e encarquilhado, que nos contava historias tenebrosas escondida de nossos pais, pois do contrario não deixariam que voltasse-mos a visita-la.

A sua casa era simples e uma das mais antigas da cidade. Tinha a base de pedra e assoalhos de madeira e abrigava objetos incrivelmente antigos. Lembro-me de uma coleção de livros hediondos que as vezes ela nos mostrava. Mal sabíamos ler, mas as figuras! Aquelas gravuras em branco e preto me causaram pesadelos por toda a infância e ainda hoje não e raro acordar de um sonho vago com lembranças dos seres fantásticos que povoavam aquelas figuras em atos inomináveis de depravação e canibalismo.


Lembro-me na infância de sonhar coisas fantásticas e absurdas, talvez influenciado pelos relatos da velha senhora, talvez pelos livros medonhos, como na noite em que acordei a casa aos gritos, depois de acordar de um pesadelo que não tive coragem de contar aos meus pais. Naquela noite sonhei que estava em um parque e que o chão de cimento estava coberto de folhas amarelas e vermelhas e também que havia chovido recentemente. Um homem veio caminhando ate mim. Estava vestido elegantemente e começou a conversar comigo e pareceu que muito tempo havia se passado. Ao longe eu ouvia um gira-gira movimentando-se lentamente sem nenhuma criança para impulsiona- lo. Não me lembro das palavras do estranho mas ao final da conversa eu sabia: havia conversado com o diabo e ele havia me revelado a data da minha morte e de todos os que eu conhecia.

Passado o choque inicial causado pelo sonho, sendo criança, logo esqueci-me dele, pois haviam outros assuntos que me ocupavam a imaginação, como o amigo estrangeiro de meu pai que nos visitava ocasionalmente. Sempre que ele chegava eu já tinha ido para a cama, por isso nunca cheguei a ver o rosto dele, mas podia ouvi-los conversando ate tarde da madrugada sob a luz de velas em um estranho idioma. Soube algum tempo depois que ele havia morrido em um estranho acidente.

Morávamos em um alto sobrado no centro da cidade em uma rua escura devido as arvores frondosas que escondiam a luz dos postes. Conhecia muito pouco do mundo ao meu redor devido a um cuidado excessivo por parte dos meus pais que pareciam temer algo mais que os perigos cotidianos a que uma criança esta exposta. Foi nesta época que comecei a frequentar o antigo colégio tradicional gerenciado por padres católicos.


O COLÉGIO

O colégio era enorme, ocupava todo um quarteirão e nele estudavam sob as rígidas normas dos padres, as crianças das famílias mais proeminentes da região. O colégio por si só já evocava temores febris nos mais jovens devido a boatos que circulavam há anos a respeito de certos corredores desertos nos andares subterrâneos de alguns prédios, do cemitério onde os padres eram enterrados e do laboratório de ciências que encontrava-se fechado há muito tempo, mas que por entre as janelas empoeiradas do porão podíamos ver as bancadas imundas imersas na escuridão, animais embalsamados que pareciam vivos e vidrarias cheias de líquidos que abrigavam espécimes assombrosos de fetos humanos abortados e teratomórficos, mal formados, anencefalos e heresias maiores e mais blasfemas.

Os professores não eram menos rígidos. Todos os dias assistíamos o hasteamento da bandeira pela manha e depois as aulas ate o final da tarde. Foi neste colégio que passei a minha infância. Nos pátios escuros e fechados com o chão limoso e ensombreado por altos flamboyants que dão vagens compridas e cheias de sementes.

E foi nesta época também que meu interesse pelas historias da senhora da casa ao lado se intensificaram pois para mim algum fundo terrível de verdade existia por trás dos relatos fantásticos, senão os demais adultos não teriam tanto esforço para encobri- los.

Passava o tempo e minha curiosidade foi aumentando. Passei a estudar com afinco os livros que conseguia pegar escondido na casa ao lado. Agora com mais idade já sabia ler , o que porém não foi de muita ajuda, pois a maioria dos livros estava em algum idioma incompreensível, salvo por notas feitas a mão nos rodapés. Um livro em especial me atraia. Chamava-se "Devermis Miisteris" e logo descobri que estava escrito em latim. Não poupei esforço para aprender alguma coisa da língua morta com os padres do colégio que admiravam meu interesse sem suspeitar do seu fim.

Neste livro aprendi sobre a insignificância de nosso mundo e da vida humana e quão passageira é a nossa espécie nesta terra; como seres antigos habitaram este e outros mundos caídos do céu e dominaram eras dotados de um poder terrível e como foram destruídos, abandonaram nosso mundo ou aguardam adormecidos no fundo do oceano. Aprendi sobre o cometa negro Hefaístos e que é chamado de "aniquilador de mundos", que há eras está em rota de colisão com a terra e que as criaturas deste planeta nem de longe sonham que o fim se aproxima velozmente e que o impacto irá exterminar até mesmo a vida bacteriana e evaporar toda a água do planeta. Aprendi também sobre criaturas que espreitam nas trevas em subterrâneos de cidades antigas e que são necrófagas, habitando principalmente cemitérios onde podem se alimentar, mas que se perturbadas ou famintas podem atacar os vivos também, o que me fez pensar se certas lendas contadas no colégio não seriam mesmo verdadeiras. Resolvi então criar um embuste e visitar o colégio a noite.


ESCURSÃO NOTURNA

Naquela noite, após uma semana de preparativos e depois de quase desistir algumas vezes, estava tudo acertado. Esperei meus pais dormirem, saí nas pontas dos pés do meu quarto e olhei para a sala iluminada por uma vela. Um arrepio percorreu minha espinha ao imaginar a formidável aventura que eu estava para viver. Tomando o cuidado de não fazer barulho, o que é muito difícil quando se está nervoso, pois o próprio coração parece estar pulsando a um volume audível para a casa toda e cada mínimo ruído se amplia e as portas e assoalhos parecem pregar peças rangendo ao menor movimento. Desci a escada tentando deixar tudo na mesma ordem para, na eventualidade de que se algum dos meus pais acordasse, não percebessem que eu havia saído, sem verificar meu quarto.

Com o coração ao pulos sai de casa e encostei a porta. Respirei o ar frio da noite. Até ali tinha sido fácil, mas eu sabia que agora tinha um caminho relativamente longo ate o colégio, que ficava ha uns 2 kilometros de casa descendo uma ladeira, devia entrar e sair, além de retornar antes do amanhecer, pois meus pais acordavam muito cedo.

Caminhei com os braços cruzados devido ao frio, soltando nuvens de fumaça da boca, sempre pela sombra das árvores, para ocultar-me de algum observador nas janelas. Cheguei ao colégio sem incidentes, circundei o muro à procura de um local adequado para saltar o que encontrei nos fundos da cantina. Agora dentro dos muros do colégio eu tinha um plano muito bem definido. Segui beirando o muro até as janelas que davam aceso ao porão e forcei-as uma a uma até encontrar uma que se abrisse. Com meu corpo magro entrei por ela. Deste ponto em diante não me recordo com precisão dos fatos que ocorreram devido ao choque e ao estado em que fui encontrado pela manhã pelo zelador, porém me lembro vagamente de percorrer os corredores subterrâneos do colégio em completa escuridão sentindo um frio sobrenatural. Lembro-me de ficar perdido no labirinto subterrâneo por um tempo indizível sempre com a sensação se estar sendo seguido ou observado mas com a firme determinação de encontrar a saída para o pátio interno onde ficava o cemitério de padres. Lembro-me de finalmente ver a luz da lua no final de um corredor e com o coração acelerado caminhar em sua direção, e ao chegar do lado de fora, de vê-los em meio aos túmulos. Os olhos brilhando na noite como olhos de tigre, agachados sem roupas soltando silvos e se alimentando de um cadáver apodrecido que fora desenterrado.

Creio que desmaiei e entrei em um estado catatônico. Fui encontrado no dia seguinte pelo zelador, sujo de lama, parcialmente enterrado junto com os restos do cadáver semi devorado. Parece que fiquei neste estado por vários dias. Fui levado a vários médicos e especialistas que diagnosticaram um grande trauma psicológico e me medicaram. Como eu não melhorava dos sintomas de catatonia e terrores noturnos fui internado neste sanatório em que me encontro agora escrevendo. Resolvi deixar este relato, bem como as instruções escritas no verso de como encontrar o Devermis Miisteris e dois outros livros que consegui roubar da velha senhora, na antiga casa de minha família, pois não tenho muito tempo. Todas as pessoas mencionadas pelo diabo no meu sonho quando criança faleceram nas datas precisas e amanhã chega a data da minha morte como revelada por ele. 

Por Octavio Morales

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